14 Dezembro, 2009

A música da minha vida


14 de dezembro de 2009.

Música nunca foi o meu forte. Não ouço, não toco. Às vezes penso que nem me faz falta, que consigo viver sem ela. Pessoas me vêem no dia-a-dia com meu fone de ouvido e, quando perguntam, jamais imaginam que o que toca ali são notícias. Ouço a Jovem Pan AM e a CBN FM.
Bem, mas a música tem outro sentido para os meus filhos. Desde cedo, ao ouvir o avô dedilhar seu violão, o Lukas já se interessava, gostava, e acompanhava a melodia com suas palavras ainda incertas. Foi um orgulho quando começou a cantar após uma simples introdução feita pelo avô no violão. Ele, o avô, saiu correndo para contar a todo mundo que o Lukas tinha ouvido para a música, que já identificava o que estava sendo executado. Jamais me esquecerei. Hoje, anos depois, este neto daquele avô falecido toca sua guitarra, compõe, canta. Meu músico, com muito orgulho.
A Gabriela, minha caçulinha, que completará ainda seus três anos, também já demonstra adorar música há vários meses. Dança, canta também com palavras incertas, pede repeteco. Ontem, sábado, entramos numa loja, no departamento de brinquedos. Ela andou, correu, pegou alguns brinquedos mas parou num teclado que estava ali no chão. Tocou, sorriu, divertiu-se. Ficou entretida e não havia meios de tirá-la dali. Achou um menor e também começou a dedilhar. Comprei. Ela não largou. Tocava e cantava, feliz, muito feliz. Acho que qualquer outro brinquedo não traria aquela alegria.
Tarde da noite, após nosso banho, ela deitou-se na cama e ainda dedilhava o tecladinho. Eu fiquei de costas, no computador, até que ouvi a música parar. Quando olhei, a Gabi havia dormido com seu primeiro instrumento. Fiquei emocionado. Lembrei do Lukas, do Sylas, do meu amor pelos três.
Meus filhos, a música da minha vida.

10 Novembro, 2009

Elogio ou maldade?

9 de novembro de 2009.

A moça pediu uma bebida e distraiu-se. Não ouvi se pediu um suco ou um refrigerante, mas ouvi o atendente perguntar:
- Que sabor, chuchu?
Outro atendente dirigiu-se à moça:
- Ó, está falando com você.
- Comigo? – perguntaram duas ao mesmo tempo.
- Que sabor, chuchu?
Esse segundo “chuchu” foi falado já sem graça, com um certo receio de ser mal recebido, demonstrando que o primeiro não foi mera expressão, mas palavra pensada.
As duas sorriram, riram, e aquela para quem foi feita a pergunta respondeu toda feliz. Tomou o “chuchu” como elogio.
Fiquei pensando: quem inventou essa de “chuchu”? Troço sem graça, sem gosto, feio... Ou será que “chuchu” não é elogio e, sim, pura maldade?

15 Outubro, 2009

Jogos terapêuticos

15 de outubro de 2009.
Saiu na imprensa, dia desses. Interessante.

“Todos nós temos ansiedade diante dos fatos cotidianos da vida. Por exemplo, se eu vou ao dentista, fico ansioso; se vou prestar um exame, fico ansioso. No entanto, tem havido muito uma tentativa de querer 'medicalizar' o cotidiano, fazer com que as coisas da vida sempre devem receber medicamento", explica Elisaldo Carlini.
...
A sabedoria de antigamente usava outro tipo de receita, por exemplo. "O famoso chá de erva-cidreira, que era a fórmula usada pela minha avó. O filho ou neto estava nervoso, ela chamava na cozinha, catava lá o seu capim-santo, picava em uma xicarazinha, colocava água fervendo em cima e saia aquele cheirinho gostoso. Você ia tomando de gole em gole, conversando. Ou seja, não há insônia que resista a essa liturgia. A pessoa se acalma mesmo, porque conversa daqui, conversa dali, vê a fumacinha surgindo. São todos jogos terapêuticos, sem existir uma droga benzodiazepínica", diz Elisaldo Carlini.

28 Setembro, 2009

Café com charme

26 de setembro de 2009.

Difícil achar uma palavra que traduza o que sinto, mas talvez charmoso seja a melhor. Acho charmoso tomar o café da manhã fora de casa. Pode ser até um simples sentar numa padaria, em frente a um balcão qualquer e pedir um café com leite e um pão com manteiga. A chave é sentar. Sentar para tomar café demonstra que se tem tempo, que se tem um desprendimento do relógio e de compromissos. Parece que é dar um tempo para si mesmo quando se está sozinho. Parece que é um tempo quase sagrado de fazer o desjejum para se ter um dia melhor, mais feliz.
E quando se está com um jornal ou revista então? Mais charmoso ainda. Significa mais tempo disponível. Mais despreocupação com compromissos. Mais tempo para se atualizar, saber do mundo primeiro para depois viver a rotina.

É um sentimento. É algo que às vezes faço. Hoje, expresso puro e pão de queijo: quatro reais e vinte centavos.

29,4 km/hora


26 de setembro de 2009.
Entrei na Ibirapuera e a peguei desde o início. Nada como um sábado de manhã. Claro, tem seu trânsito, mas nada comparado à rotina dos dias úteis. Acho que sábado também é útil. Até o domingo.
Mas voltando à Ibirapuera, deslizei por ela a sessenta por hora. Parei apenas nos semáforos. Esquinas da Juriti, Macuco e Jacira, até entrar na José Diniz. Vieram os próximos sinais vermelhos nas esquinas da Vieira de Morais, Brasões e Alexandre Dumas. Cheguei logo onde não dá mais mão. Marechal Deodoro e Santo Amaro. Apenas uma parada na esquina da Barão de Cotegipe. Logo veio a João Dias com mais duas paradinhas para o tráfego que vinha da esquerda, cruzando e entrando na avenida: Padre José de Anchieta e Bento Branco. Viaduto e Giovanni Gronchi. Rápido. Quarenta e dois minutos até o Shopping Portal do Morumbi, 20,6 quilômetros. Agora é testar o caminho na sexta, no duro trânsito das sextas-feiras em São Paulo.
Ah, justiça seja feita: na minha volta reparei melhor o caminho e não é tão feio assim, tão pobre assim, conforme meu título do post anterior. Afinal, passo pela José Diniz que é Brooklin e Campo Belo, pela Ibirapuera que é Campo Belo e Moema...

26 Setembro, 2009

Caminho pobre, caminho rico

25 de setembro de 2009.

Eu deveria ter gravado meus pensamentos. Minha volta do Morumbi foi decidida visando melhorar o tempo, pegar menos trânsito. Na semana passada o caminho foi estressante e o trânsito para lá de lento. Para ficar lento tinha que melhorar, como diria um amigo.
Direita ou esquerda? Não! Marginal, hoje, não! Vou por trás! É, vamodicuzim! Não sei porque eu pensei “por trás”, mas foi assim mesmo. A relação posterior foi uma conseqüência engraçada.
Caminho de Santo Amaro. João Dias. Visual horroroso, completamente o inverso do caminho da semana anterior quando passei por Itaim, Vila Nova Conceição, Moema. Caminho pobre - pensei. Mas... quem sabe não anda mais? Pronto, começou a ir bem. É, melhor andar sem visual do que ficar parado contemplando a paisagem concreta, chic, nobre, rica. O circuito fino é muito lento. Nem foto, hoje, dá para tirar. Nada chamativo, nada que poderá ser um registro interessante.
Uma hora cravado e eu entrando na Sena Madureira. Bom demais! Amanhã tentarei a ida por este caminho invertido. A experiência correta de se fazer é na próxima sexta-feira. Sábado não é a mesma coisa. Jamais será.

21 Setembro, 2009

Conforto

21 de setembro de 2009.

A gente passa a vida fazendo coisas, muitas coisas. A gente come, dorme, acorda, trabalha, estuda, lê, escreve, conserta, estraga, repara, fala, ouve, gesticula, senta, fica em pé, se ajeita. A gente aprende a ter pressa. Engole a comida e ouve algum mais velho aconselhar que se mastigue mais. A gente corre e esquece do corpo, da postura. A gente quase sempre fica sem conforto.
Melhor é ter tempo, calma, paciência. Melhor é se ajeitar até sentir tudo acomodado. Tudo é tudo: quadril, pernas, pés, braços, mãos, pescoço, cabeça, coluna. Tudo. Melhor é mastigar sentindo o sabor. Desfrutar do momento. Sentir prazer. Melhor é bater um prego, recortar, colar, consertar, fazer o que fizer, acomodado, na melhor das posições possível. Até deitar, nada de deitar torto. Deitar para descansar o corpo. Relaxar.
Conforto. A gente deveria se lembrar dele antes dos anos começarem a passar. Ou começarem a chegar, dependendo do ponto de vista. É. Postura é fundamental e eu agora começo a descobrir o fato. Perco alguns segundos, mas ando me ajeitando melhor para os afazeres. E que bom é sentir o conforto. Que bom. E que dura é a reeducação. Que dura.

21 Agosto, 2009

Sandy, você não pode...


21 de agosto de 2009.

Aconteceu na semana passada.
Aline e Felipe, irmãos da Gabriela, resolveram jogar Banco Imobiliário. A Gabriela também quis jogar. Diferentemente do que acontece quase sempre, não disseram a ela "você, não, Gabi! Você não sabe jogar! Você ainda é pequenininha!". Deixaram-na sentar por ali.
Na preparação do jogo, das peças, apareceu a Sandy, a cachorrinha maltês que temos aqui em casa. A Gabriela já foi mandando:
- Sai, Sandy, você não pode jogar! Você não tem mão!

13 Agosto, 2009

Vida na bolha ou a era do medo


11 e 12 de agosto de 2009.

Tenho andado de ônibus. Uma linha light, de poucos passageiros. Dá para ir e vir sentado, tranqüilo, ouvindo meu radinho.
Estive no Hospital São Paulo como expositor de feira de artesanato. Estive ao ar livre mas, ali fora, sentia o clima de apreensão lá de dentro.
Poupatempo da Sé. Muita gente. Ambientes com o pé-direito alto, mas fechado. Uma grande câmara com ar um pouco viciado.
Metrô. Hospital das Clínicas. Multidão. Multidões. Aperto. Em pé no transporte, mão em qualquer apoio, em pé e sufocado nos elevadores. Máscaras, lenços, fraldas de pano. É possível se proteger? Como? Só se todos andarem mascarados! Só se chegarmos à realidade dos filmes que mostram o futuro. Cada um no seu casulo. Sem toque. Sem tato. Vida na bolha. Fim do abraço. Fim do beijo. Fim do sexo.
Como fugir de um vírus? Como saber onde ele está? É um inimigo invisível que pode invadir sem ser notado. Toma o palácio real. Dá um golpe no chefe do poder. Governa. E pode matar.
Um resfriadinho agora é visto quase como um crime. Também uma alergia matutina, daquelas que entopem narizes e mandam coriza. Tossir ou espirrar em público parece proibido. Falta apenas a placa de sinalização. Olhos se viram para o da tosse já com aquela expressão de preocupação ou condenação. E como saber onde está o vírus? Como segurar?
As notícias não revelam a realidade. Os casos nos hospitais são muito mais do que o que é permitido dizer. Para não gerar pânico na população - alega o governo bastidores afora.
O fato é que não dá para se proteger. Só Deus pode. A ação do vírus é louca, sem alvo certo. Não escolhe. Não vê cara, nem coração. Não vê homem, nem mulher, preto, nem branco, adulto, nem criança, velho, nem novo, magro, nem gordo. Ataca, simplesmente ataca em silêncio.
Entregar a Deus e confiar n´Ele. Mais nada pode ser feito. Nossa parte pode ser o uso de máscara, o lavar das mãos... E o que mais? Vida na bolha ou a era do medo. Se a Aids não segurou relações furtadas, quem sabe o H1N1?
Não há como controlar. A verdade é que não há.

06 Agosto, 2009

Velho conhecido

6 de agosto de 2009.
Ele ficou ao meu lado, se não erro, por quatorze anos. Um amigo – diriam alguns. Um grande amigo – poderiam até dizer. Eu, porém, que vivi o cotidiano, digo que não passa de um colega ou talvez até um simples conhecido. Sim, porque amigo tem graduação. Amigo não é recruta, é marechal. Amigo quer e faz bem. Este, de quem falo, faz mal. Destrói. E estava sempre ali.
O Lukas pediu que eu o deixasse. O Sylas concordou. Respondi que sim. Quando o primeiro encontrou-me, tempo depois, perguntou. Eu ainda não o dispensara, mas sabia que era o melhor a fazer.
Um dia a Gabriela deu-me um abraço, um beijo e disse que me ama. Foi o motivo para eu largar aquele companheiro. Amor. Querer viver mais para ver, conviver com meus filhos. Amo demais os três.
Adeus, velho conhecido. Adeus.
Ele se foi. Foi, porém, bater na porta de quem primeiro me pediu que o deixasse. E entrou.
Descubra logo, meu filho querido, que o abraço que recebeu pode ir embora. Deve ir. Não vale a pena esta companhia. Viva. Viva mais. Viva feliz. Eu amo você.